21 de março de 2012

Conto do dia.


Há muito tempo atrás, em uma pequena aldeia, viviam alguns índios às bordas do rio Amazonas, nesse lugar tudo era floresta.
As árvores verdes e as cristalinas cascatas de água doce faziam um paraíso onde era maravilhoso viver.

 Aquela aldeia era habitada por uns 120 indígenas muito pacíficos e trabalhadores.

 Entre todos eles, vivia uma menina morena de bondoso sorriso alegre e dona de olhos brilhantes como as estrelas nas noites claras. Seu cabelo era liso e preto, sempre enfeitado com uma formosa faixa de flores rosas.
Ícano Azagua era seu nome, que no idioma daqueles índios significava “fada da floresta”.

Dizem que a menina era um ser muito feliz. Seu estado de felicidade permanente era porque se sentia em paz com a natureza que a rodeava.
Na realidade, os habitantes daquela aldeia apenas tiravam da natureza o estritamente necessário para se alimentar, pois tudo o que ela oferecia era um presente de Deus para eles, e a alegria de sentir aquilo se refletia em seus olhares.

 Mas, Azagua era um ser mais especial ainda, afinal ela nascera com a sensibilidade de um artista em sua alma. Amava a natureza e se sentia parte dela, fazendo lindos enfeites com flores silvestres.
 A menina gostava de se separar do seu grupo de amiguinhos e ficar sozinha escutando os sons que a floresta lhe dava de presente.

O gorjeio dos pássaros, os ramos das árvores refrescando o chão, os barulhos dos macacos brincalhões e o suave passo das águas entre as pedras eram pra ela a voz da terra, a música da natureza e o sussurro de Deus.
Um dia como tantos outros, Azagua estava sozinha recostada sobre uma grande pedra, desfrutando da frescura que as velhas árvores faziam com suas sombras, quando de repente ouviu:

- Psiu! Psiu! Ei, você não viu meu pássaro azul?
A menina deu um pulo e ficou de pé.

- Quem esta aí? – perguntou um pouco assustada.
Acreditando que era um de seus amiguinhos que estava escondido na floresta, continuou dizendo:

- Aparece agora! ...Você já conseguiu me assustar.
E nada aconteceu.

 Por um momento a menina pensou:
- “ Acho que estava sonhando e acreditei ter ouvido uma voz que realmente não existiu.”

 Mas de repente, alguém continuou falando:
- Desculpe-me! É que estou procurando meu pássaro azul. Você não o viu?

Azagua prestou mais atenção e lhe parecia que aquela voz vinha de uma árvore que estava justo atrás de uma grande pedra.
Então disse:

- Velha árvore da floresta, você está falando comigo?
- Sim, sou eu mesma! – respondeu a árvore - Desculpe-me por te assustar, mas na verdade estou muito triste e preciso da ajuda de alguém.

   - O que você quer saber? 
- Preciso ter notícias dele. É um brilhante pássaro azul de formoso gorjeio e com uma plumagem que lembra sempre o céu. E quando canta, o faz com tanta alegria e emoção, que refresca as lembranças da minha infância, há 300 anos atrás. Mas ele sumiu! – se lamentou a árvore.

- Nossa! Você tem 300 anos! É muito tempo, hein!!! - exclamou Azagua.
- É verdade… hoje pesam sobre meus ramos uns quantos anos a mais. Eu vi acontecer muitas coisas por debaixo de minhas folhas. Houve uma vez que quase me cortam pelo meio para fazer uns tristes dormentes de ferrovia. Outra vez, ocorreu que alguns fogos me deixaram com as raízes muito chamuscadas por algum tempo. Mas, todos esses maus momentos consegui superá-los com muita resistência. Agora já estou velha e não posso viver sem o canto do meu pássaro azul. Você não o viu por aí?

E a árvore continuou dizendo:
- Se o encontrar em algum lado, por favor, diga-lhe que volte para meus ramos, porque o verde de minhas folhas já não é mais o mesmo de antes.

- Tantas saudades só por causa de um pássaro???!!!! – perguntou Azagua. Existem milhares deles por aqui que também podem cantar pra você.

- Não! Não! – disse a árvore. Você não entende! Esse pássaro é meu amigo e faz parte da minha alma. É o único de quem tenho saudades. Sabes de uma coisa? – falou a árvore - Quando ele canta pelas manhãs, seu gorjeio chega a emocionar até a última fibra deste velho tronco e sinto que minha seiva flui como a força de mil cavalos selvagens, rejuvenescendo tudo em mim. Em troca de sua música, lhe ofereço proteção nas noites frias e também nos dias de tormenta. Ele faz seu ninho num buraco de minha casca. Somos grandes amigos! Mas há algum tempo atrás eu fiquei sem sua cor e sem seu canto. Por acaso você não viu meu amigo em outras árvores?– perguntou novamente.
Azagua respondeu:

- Até agora não tive a oportunidade de ver seu cantor azul, mas lhe prometo que daqui por adiante, ficarei mais atenta ao caminhar pela floresta.

- Muito obrigada por me ajudar! – Replicou a árvore - Por favor, não demores em trazer boas notícias a esta velha árvore, pois as saudades descascam muito mais rápido a minha ressecada cortiça.

Assim foi que Azagua, ainda surpreendida por aquele estranho encontro, decidiu voltar para sua aldeia.

 Pelo caminho pensava se aquilo foi um sonho ou uma incrível realidade.

 Depois de alguns dias, a menina tinha decidido não contar nada sobre sua estranha experiência na floresta, pois sua história era tão inacreditável, que tinha medo de que todos zombassem dela.

 Mas aquele acontecimento era tão verdadeiro como a existência dos dedos de sua mão.

Numa manhã como tantas outras, Azagua ainda sem saber nada daquele pássaro, decidiu não passar mais por onde vivia a velha árvore, pois sentia pena de não ter boas notícias e isto, certamente, lhe provocaria uma grande tristeza.

 A menina decidiu caminhar por outra trilha até então desconhecida. Ali, os ramos secos se mesclavam entrelaçados, criando espécies de armadilhas emaranhadas de folhas e madeiras secas.

 Azagua, em um momento de sua caminhada, sentiu que algo se movia no interior daqueles galhos e aproximou-se medrosa e lentamente.

 Encontrou um pássaro escuro e bastante depenado, tentando libertar-se. Em seguida, perguntou:

- Ah!!! Não será você o pássaro que a velha árvore busca tanto?

- Sim! Embora não pareça, sou eu! – exclamou a ave de mal humor.

- O que aconteceu contigo?  - indagou Azagua - Olhe só para as suas plumas!!?? Não me parecem muito azuis...

- Minhas plumas só ficam azuis quando meu coração se sente feliz ao cantar pelas manhãs - respondeu o pássaro. Mas, preso aqui nestes galhos, sofro durante todo o dia e com isso, minha plumagem vai perdendo a sua cor e seu brilho. Olha só como eu estou!

 E o pássaro prosseguiu dizendo:

- Você conhece minha velha amiga da floresta?

- Sim, sua amiga está te procurando, não faz outra coisa a não ser falar de você! Ela diz que sua ajuda à fez viver melhor, principalmente quando cantas ao amanhecer. Pode cantar agora para mim, pássaro azul?

- Não posso fazê-lo! – Disse tristemente o pássaro. Para cantar, tenho que me sentir feliz. Eu nasci para ser livre! É a minha natureza, mas agora estou preso!

Sem se preocupar com os espinhos e se machucar, a menina abriu com força a improvisada armadilha e lhe disse:

- Olhe bem, preste atenção: não voltes mais por aqui, é muito perigoso!

Quase como se fora uma rajada de ar fresco, aquele pássaro escapou desesperado para perder-se na imensidão da floresta.

Depois de algum tempo...

 Azagua decidiu ir visitar aquela velha árvore para ver como estavam às coisas.

 Quando chegou, em seguida notou que o verde das folhas estava diferente e ao elevar a vista, pôde ver um pássaro azul brilhante num dos galhos.

A menina se recostou na grande pedra de sempre e com um sorriso nos lábios disse:

- Vejo que agora estão felizes!

E a velha árvore respondeu:

- Você fez o milagre!

E continuou dizendo:

  - Azagua, você colocou as coisas em seu lugar, então, me permita lhe entregar por aquilo que fizestes por nós, este humilde presente em nome de nossa amizade. Darei-lhe a mais verde de todas as minhas folhas. Leve esta folha sempre com você e enquanto eu viver, te prometo que ela nunca perderá seu brilho nem sua cor.

E o pássaro acrescentou:

- Eu te entregarei a mais azul de todas as minhas plumas, ela é a prova do nosso agradecimento e o pacto de harmonia que deve existir entre a natureza e os habitantes de sua aldeia. Enquanto essa harmonia durar, lhe prometemos que a folha verde e esta pluma minha, jamais perderão seu brilho e sua cor.

Então ocorreu que, do alto daquela velha árvore, foram caindo lentamente e dançando pelo ar, uma brilhante folha e uma bela pluma azul, e em todo o céu da floresta pode se ouvir o cantar mais doce que uma ave pode criar.

A partir desse dia e até hoje, todos os descendentes daquela tribo dançam ao ritmo de uma música que recorda o canto de um pássaro e levam sobre suas cabeças, uma faixa de flores brancas e entre elas, uma só folha verde e uma delicada pluma azul.

 Eles dizem que, dessa forma, recordam para sempre o pacto de harmonia feito entre uma árvore, um pássaro e sua “fada da floresta”.
Autor: César Alberto Montiel

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